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Testes Genéticos Volumes 1 e 2

TESTES GENÉTICOS - Volume 1

DOENÇAS GENETICAMENTE TRANSMISSÍVEIS

DOENÇAS MONOGÊNICAS AUTOSSÔMICAS RECESSIVAS - 2ª Edição

INTRODUÇÃO

O CBRJRT abordará nesta cartilha, as cinco doenças geneticamente transmissíveis que podem acometer não só o Jack Russell Terrier, mas, que também podem acometer outras raças. Também será abordada a importância de se fazer o estudo de acasalamentos baseados também nesses exames genéticos para tais doenças.

Idealizamos as Cartilhas sobre Testes Genéticos em dois volumes. Este Volume 1 é dedicado às Doenças Monogênicas Autossômicas Recessivas, enquanto o Volume 2 dedicamos à uma doença Multifatorial que pode acometer a raça, que é a Luxação de Patela. Focando no presente volume, o que são Doenças Monogênicas Autossômicas Recessivas?

São Doenças Monogênicas, isto é, doenças transmitidas de acordo com os padrões mendelianos (herança genética das características transmitidas de um ser para seus filhos), como por exemplo, as Autossômicas Recessivas, foco do presente trabalho, através de duas cópias de gene, em que ambos devem ser mutados para que um cão seja afetado por determinado distúrbio autossômico recessivo.

Apesar de a cartilha ser mais direcionada para criadores, a mesma está disponível para todos os públicos, inclusive proprietários da raça. É um direito de todos se informarem sobre a raça, bem como é um direito exigir do criador os laudos dos testes genéticos, aqui abordados nesta cartilha, se acharem o assunto importante e fator determinante para a aquisição de um exemplar da raça, independente da finalidade, se para criação ou companhia.

Esta cartilha se baseia na Ciência, aliada importante para a criação de cães, uma vez que, com base nas suas recomendações, orienta pela investigação de cinco doenças genéticas. Quais são elas?

  • Luxação Primária do Cristalino (Primary Lens Luxation - PLL)
  • Ataxia Espinorecebelar Canina (Spinocerebellar Ataxia - SCA)
  • Ataxia de Início Tardio (Late Onset Ataxia - LOA)
  • Encefalopatia Juvenil (Juvenile Encephalopathy - JBD)
  • Mielopatia Degenerativa Exon 2 (Degenerative Myelopathy Exon 2 - DM)

Antes de falar de cada uma delas, é importante alertar que as doenças genéticas não são comuns no Jack Russell Terrier, mas, que são doenças da espécie canina, com maior ou menor incidência em determinada raça, sempre com base em estudos científicos, sendo o Jack Russell Terrier, a raça foco desta Cartilha. Para o CBRJRT e para o criador responsável, comum é a raça geneticamente saudável!

Sobre cada uma dessas doenças:

1 – LUXAÇÃO PRIMÁRIA DO CRISTALINO (PRIMARY LENS LUXATION - PLL)

A luxação primária do cristalino é uma doença que acomete diversas raças (cerca de 45 raças relatadas, porém atinge especialmente os terriers, dentre eles o Jack Russell Terrier. É uma doença cuja predisposição, é genética, ou seja, a chance de seu desenvolvimento, que acomete cães entre o 3o e 8o ano de vida, está ligado diretamente à carga genética recebida dos pais. Não é certo que um animal duplamente portador vá desenvolver a doença, porém a chance é grande. Assim como não é certo que um animal simples portador jamais desenvolva o mal, porém a probabilidade é pequena.

A PLL é um distúrbio que acomete os olhos dos cães e é causada pela ruptura das fibras zonulares resultando em parcial (subluxação) ou completo deslocamento (luxação) da lente ou cristalino. Observando- se qualquer alteração no globo ocular deve-se imediatamente procurar o médico veterinário para um exame oftalmológico para um exame detalhado associado ao exame de DNA (caso o animal não tenha) para se ter o diagnóstico definitivo para PLL e a conduta adequada para o tratamento. Na maioria dos casos, a intervenção cirúrgica é necessária. É uma doença grave e dolorosa, que pode levar à cegueira se não for tratada rapidamente.

2 – ATAXIA ESPINOCEREBELAR CANINA (SPINOCEREBELLAR ATAXIA - SCA)

A Ataxia Espinocerebelar Canina é um distúrbio hereditário que ocorre em Jack Russell Terrier, Fox Terrier e Toy Fox Terrier. A primeira forma de ataxia hereditária foi relatada em Smooth Haired Fox Terrier em 1957, que foi seguida por relato de uma doença com sintomas semelhantes no Jack Russell Terrier em 1973. Outra forma de ataxia é a ataxia cerebelar, que, no entanto, é um distúrbio diferente da ataxia espinocerebelar e em um Jack Russell Terrier pode ser afetado por uma das formas de ataxia, e não por ambas.

A SCA pode surgir a partir dos 3 meses de idade e os sintomas incluem: - incoordenação motora principalmente dos membros pélvicos; - Dificuldade em manter-se em pé ou até mesmo de pular; - Tremores musculares tanto em membros torácicos como pélvicos, aumento da temperatura da região podendo levar a um quadro de convulsão; - Como é uma doença genética e de natureza progressiva, de difícil tratamento e sem cura, a maioria dos cães afetados são eutanasiados pela baixa qualidade de vida.

3 – ATAXIA DE INÍCIO TARDIO (LATE ONSET ATAXIA - LOA)

A Ataxia de Início Tardio é uma doença hereditária autossômica recessiva caracterizada principalmente por uma incoordenação progressiva da marcha (movimentação). Os primeiros sintomas podem aparecer entre 6 a 12 meses de vida e incluem a perda de equilíbrio e uma pequena incoordenação da marcha. Posteriormente a incoordenação vai se tornando progressiva ou perda total da mobilidade.

4 – ENCEFALOPATIA JUVENIL (JUVENILE ENCEPHALOPATHY - JBD)

A Encefalopatia Juvenil ou Doença Cerebral Juvenil em Jack Russell Terrier, doença hereditária autossômica recessiva, é um distúrbio cerebral grave, com um início precoce de cerca de seis a dez semanas. Filhotes afetados sofrem convulsões epiléticas e ataxia. A doença progride rapidamente, causando danos cerebrais irreversíveis, levando à morte.

Aparentemente trata-se de uma doença “peculiar” para os Russells (Jack Russell Terrier e Parson Russell Terrier), até então não diagnosticada em outras raças.

5 – MIELOPATIA DEGENERATIVA Exon 2 (DEGENERATIVE MYELOPATHY Exon 2 - DM Exon 2)

A Mielopatia Degenerativa canina (DM) é uma doença neurodegenerativa fatal, de progressão lenta, com início tardio (idade de 8 anos ou mais). O sinal clínico inicial é caracterizado por ataxia proprioceptiva espástica e geral dos membros posteriores. À medida que a doença progride, a fraqueza assimétrica frequentemente observada sobe para afetar os membros torácicos, resultando em paraplegia. Ocorre hiporreflexia dos reflexos miotáticos e de retirada.

Inicialmente, a DM foi reconhecida como um distúrbio da medula espinhal de aparecimento espontâneo em pastores alemães. Hoje em dia, o DM foi diagnosticado em várias outras raças de cães, incluindo Pembroke Welsh Corgi, Boxer, Rhodesian Ridgeback e Chesapeake Bay Retriever. Uma mutação no exon 2 do gene SOD1 foi identificada como o principal fator de risco para o desenvolvimento de DM em muitas raças até o momento e é neste ponto que contempla o Jack Russell Terrier.

A título de curiosidade, na raça Bernese Mountain Dog, uma mutação adicional no exon 1 do gene SOD1 foi caracterizada como sendo também um fator de risco para DM.

ACASALAMENTOS DIRECIONADOS QUE PODEM EVITAR PLL, SCA, LOA JBD e DM

São doenças monogênicas, em que a herança genética dessas doenças é chamada de “doença autossômica recessiva”. Apesar do nome complicado, com a ajuda de alguns esquemas abaixo apresentados, deixaremos claro como direcionar os acasalamentos de forma a diminuir ou até mesmo eliminar o problema. É possível.

Antes de mostrar os esquemas, devemos relembrar que somente saberemos se um animal é, ou não, portador do gene que causa a PLL, SCA, LOA, JBD ou DM através da análise de DNA. Sem a mesma é impossível realizar esse trabalho, mesmo o animal não tendo nenhum sintoma aparente (lembre-se que a doença pode se expressar em idade avançada). A maneira de se evitar os problemas: trata-se de, a partir de uma amostra de sangue enviada a um laboratório especializado, analisar o DNA de matrizes e reprodutores para saberem se são portadores ou não do gene, e daí da possibilidade de transmitir a seus descendentes. Uma única amostra pode ser usada para o teste das cinco doenças.

E a partir disso, conseguimos programar acasalamentos que previnem a disseminação dos problemas. A fim de melhorar o entendimento, e sabendo que as quatro doenças possuem a mesma origem (de fundo genético), vamos representá-las nas imagens abaixo, e assumir que os reprodutores estejam classificados em três categorias, dependendo do resultado do exame. Como existem duas possibilidades de genes, normais ou mutados, um laudo de teste de DNA poderá apresentar três possibilidades e conhecendo elas, saberá como interpretar um laudo. São elas:

Para ilustrar como a herança genética se expressa, seguem alguns esquemas de possibilidades de acasalamentos e o eles podem gerar:

Macho NN x Fêmea NN

Começando pelo acasalamento de um macho 100% LIMPO (NN – NORMAL/CLEAR), com uma fêmea também 100% LIMPO (NN – NORMAL/CLEAR). O resultado é um só, 100% garantido e seguro que todos os filhotes desta ninhada serão 100% LIMPOS POR PARENTESCO (NN – NORMAL/CLEAR). É da posição do CBRJRT que este é o ACASALAMENTO IDEAL, sem riscos futuros para os seus descendentes. É o único acasalamento que recomendamos.

Macho NN x Fêmea Np (ou Macho Np x Fêmea NN)

No acasalamento de um exemplar NN com um exemplar Np, os resultados esperados serão de 50% dos filhotes LIMPOS (NN – NORMAL/CLEAR) e 50% dos filhotes PORTADORES (Np – CARRIER). É um acasalamento onde o criador não se livra do problema, porém os filhotes tendem a não sofrer de PLL, SCA, LOA, JBD e DM durante suas vidas. Caso haja interesse na reprodução desses filhotes quando adultos, é fundamental que sejam submetidos anteriormente ao teste de DNA. É um acasalamento de risco.

Macho NN x Fêmea pp (ou Macho pp x Fêmea NN)

No acasalamento de um exemplar NN com um exemplar pp, o resultado será de 100% dos descendentes PORTADORES (Np – CARRIER), ou seja, ocasionalmente irão desenvolver a determinada doença por serem heterozigotos. Vale reforçar que jamais se deve utilizar exemplares AFETADOS (pp – AFFECT/AT RISK) na reprodução.

Macho Np x Fêmea Np

Neste esquema de dois exemplares Np, teremos três genótipos diferentes como resultados, com 25% dos filhotes LIMPOS (NN – NORMAL/CLEAR), 50% dos filhotes PORTADORES (Np – CARRIER) e 25% AFETADOS (pp – AFFECT/AT RISK). Também não é um acasalamento aconselhável.

Macho Np x Fêmea pp (ou Macho PP x Fêmea Np)

Acasalando um exemplar Np com um exemplar PP, os resultados esperados serão de 50% dos filhotes PORTADORES (Np – CARRIER) e 50% dos filhotes AFETADOS (pp – AFFECT/AT RISK). Trata-se de um acasalamento extremamente contraindicado, prejudicial à raça. Reforça-se mais uma vez que não se deve acasalar cães afetados em hipótese alguma.

O laboratório Laboklin, um dos maiores do mundo no campo da genética animal, com sede principal na Alemanha, nos passou os resultados estatísticos de seus exames de DNA, com base em Jack Russell Terriers testados até o final de 2020. Seguem os resultados:

Através de nossas conversas com o Laboklin, eles nos garantem que com esses dados e pela quantidade de cães testados, eles nos dão uma visão boa e estável da genética da raça.

Diante desses resultados e recomendações da comunidade científica voltada para a saúde animal, as orientações do Conselho Brasileiro da Raça Jack Russell Terrier, afim de melhorar a raça são:

  • 1. Submeter matrizes e padreadores ao teste de DNA. Esses testes podem ser feito no Brasil ou no exterior: www.laboklin.com, www.labogen.com, www.ofa.org, www.antagene.com ou outro que faça e que seja de sua preferência, inclusive no Brasil;
  • 2. Jamais usar animais duplamente afetados (pp) na reprodução;
  • 3. Planejar os acasalamentos visando sempre diminuir ou preferencialmente eliminar o problema;
  • 4. Ao utilizar reprodutores de outros canis, exija sempre o laudo de DNA. Somente utilize animais totalmente livres da doença;
  • 5. Quando for adquirir um filhote, exija os laudos de DNA dos pais (LIMPOS).

Se a criação brasileira de Jack Russell Terrier se basear apenas nos exames dos pais de determinado exemplar e não realizar exames para este, por exemplo, corre-se o risco da perda do controle das doenças genéticas mais para frente, se todos apenas alegarem que possuem cães livres dos genes causadores das doenças hereditárias, por parentesco.

A expressão “Limpos por Parentesco” é suficiente para o proprietário que não é criador, que irá adquirir um cão deste canil com a finalidade de companhia e não criação, que tem o direito de ter um cão comprovadamente saudável para as doenças que podem acometer uma raça. Lembrando que este proprietário que não é criador, também tem o direito de exigir os laudos dos pais, e caso o criador não tenha, este terá que investigar se existem laudos dos avós ou bisavós, se estes foram testados, para comprovar a veracidade das informações. O laudo sempre será a melhor e única prova da veracidade da expressão “Limpos por Parentesco”, expressão esta que deve ser preservada e utilizada de forma responsável.

Todavia, “Limpos por Parentesco” é suficiente para o criador e o plantel? Pode ser verdade, desde que tenha os exames dos pais sim, porém, o CBRJRT defende a testagem de todo o plantel, mesmo daqueles Limpos por Parentesco, tanto pelo total controle e segurança do plantel, como para se diferenciar das possíveis fraudes do uso da expressão. Isso para o criador responsavel é de grande importância, a prática continua ao longo de gerações, de testar todos os exemplares do plantel, mesmo de pais já testados, tanto para manter a segurança com relação à saúde do seu próprio plantel, quanto à possibilidade de poder contribuir com a sua linha de sangue para outros criadores, através de filhotes da sua criação ou cobertura.

Em termos de Brasil, se cada criador testar todo o plantel e realizar os testes ao longo de gerações, praticando de maneira continuada, a criação brasileira de Jack Russell Terrier terá um grande impacto de melhoramento genético da raça como um todo, podendo extinguir os problemas genéticos e erradicar as doenças da raça, através do uso da Ciência e tecnologia.

Agindo agora poderemos sonhar com um futuro breve para a raça livre desses males. Lembrando que o ACASALAMENTO IDEAL está representando por um macho 100% LIMPO (NN – NORMAL/CLEAR), com uma fêmea também 100% LIMPA (NN – NORMAL/CLEAR), uma vez que é o único acasalamento garantido que jamais poderão gerar descendentes com PLL, SCA, LOA ou JBD. Esse é o objetivo!

Referências bibliográficas:

www.laboklin.com

www.labogen.com

www.ofa.org

www.antagene.com

Autores:

Valter da Mata – Coordenador do CBRJRT
Paula Camargo – Médica Veterinária
Rob de Wit – Zootecnista